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agosto 14, 2009
Born room
Onde existe um espaço intermitente no processo regular que faz passar os dias e as estações, encaixam bem os arautos que se desviam na diagonal dos ponteiros dos relógios e que, apesar de manterem toda a regularidade na passagem dos dias e das estações, conseguem dar um toque colorido (vá, com 2 ou 3 tons de cinzento que seja) a esse mesmo espaço.
abril 21, 2009
6348 Km por hora
É confortável assumir que a velocidade de tudo o que se passa à nossa volta é suficientemente rápida para mascarar os nossos passos em falso. Quando tudo parar de girar o que fica são apenas espaços vazios, que nem toda a areia de todas as praias de todos os países com mar chegaria para encher.
fevereiro 22, 2009
Colina
Não tenho palavras, mas tenho ruas para tentar subir e chegar a algum lado.
dezembro 31, 2008
Adiamento de passagem de ano
Vamos lá dobrar mais uma esquina...
dezembro 14, 2008
Formação Profissional
Por motivos de autosuficência das vítimas urbanas, os heróis estão fora de moda.
fevereiro 01, 2008
Comentário
Antes de começar a fazer sentido, é melhor relembrar às criaturas que têm o infortúnio de aqui vir parar, que o mundo é um banco de madeira do ikea com bicho.
setembro 12, 2007
Bagagem
Vou pegar nas chaves do teu carro e esconder o que não me apetece fazer na mala, junto com os sapatos que lá costumas deixar. Pode ser que essas coisas, as que não me apetecem fazer, ganhem pernas para andar.
maio 25, 2007
Prioridades
As palavras estragam tudo. Por isso, não digas absolutamente nada, a ninguém. Senta-te numa paragem de autocarro qualquer à espera que passe um cacilheiro e pensa que, melhor do que percorrer uma enciclopédia à procura de espaço para aninhar uma ideia ou duas, é preferível contar as remadas que faltam para chegar ao pé do rio, as formigas que partilham as tuas bolachas e pesar a areia que irremediavelmente se mete nos sapatos.
maio 10, 2007
Old
Em vez de contar as campainhas das portas da minha rua ou correr e ladrar atrás dos carros, prefiro gastar o meu tempo a pensar em ti.
abril 30, 2007
Coerência
Saí pela porta mais próxima e tomei o rumo que esqueci no bolso das calças. Se estiveres do lado de fora, do lado esquerdo de qualquer coisa grande, ou do lado direito de qualquer coisa inquietante, entro, fecho os olhos e conto até dezanove mil.
fevereiro 25, 2007
Sal
Se inverter a solução salina que sai dos olhos e deixar de ver o céu vidrado de incertezas, passo concerteza a outro nível de definições ligeiramente menos mediocres do que é viver.
janeiro 27, 2007
Bla
Com a indecente vontade de mudar o mundo, declaro abertas as hostilidades contra os poderes instituidos de tudo o que existe pelo simples facto de existir. Abaixo todas as instituições, institutos e associações de coitadinhos. Se vamos ser coitadinhos, sejamos todos no recanto dos nossos lares. Se ainda os tivermos.
janeiro 24, 2007
Civil
Ontem não me lembrei de construir alguma coisa de útil à sociedade. Por isso, hoje, fui à praia buscar um bocado de areia nos sapatos para ver se começo qualquer coisa. Tipo um estádio, um hospital ou um centro de reciclagem de profissões falhadas. Não sei qual vai ser a dimensão, mas penso adoptar o estilo estado novo invertido: pequeno na fachada e grande na realidade.
janeiro 15, 2007
Travão
Vou puxar o travão da memória e derrapar um século ou dois para chegar mais depressa até ti.
janeiro 09, 2007
Tédio

Tenho a sensação que não percebo absolutamente nada do que as pessoas dizem e muito menos do que querem dizer. Fico-me pelo compromisso de gestão diária de uma existência fraudulenta, compactuante com os desalinhados, promíscua com as ideias que não chegam a sair da minha cabeça mas combatente com os conformismos a longo prazo.
novembro 07, 2006
Cadência
O tempo e as palavras não passam de morfina de má qualidade.
novembro 01, 2006
Perpétuo
Neste teu mundo cabem todas as palavras que ainda não foram ditas, todos os desejos repetidos ao limite da imaginação e um saco de berlindes transparentes, com cores que variam entre o azul dos meus dias e o sabor da tua cor.
outubro 20, 2006
Método
No meio de tantas letras, o teu nome dá-me vontade de inventar novas palavras.
outubro 11, 2006
Human
Não cresças: fica sempre com esses olhos indecifráveis de afecto e vontade de devorar o mundo de uma vez. E, sobretudo, não aprendas a ler.
outubro 05, 2006
Walk
Vou sair, esconder-me na bicicleta e fotografar esta cidade impaciente, que tem medo que o fim de semana prolongado acabe antes de começar. Vou sair, mas já volto.
setembro 21, 2006
3*10+3
Apetece-me prolongar a agonia destas trinta e 3 palavras até ao limite do possível, sem que nenhuma delas morra, mas que nenhuma, em momento algum, diga alguma coisa que valha a pena ouvir.
setembro 14, 2006
Melancholic Hipo
Sinto pouco pela manhã e grito como posso o entardecer dos dias Quero arrancar azul do céu para escrever no vermelho dos teus lábios poesias
agosto 22, 2006
Mirror Conspiracy
Nas repetições não premeditadas das mesmas acções existe uma certa pureza informal, positiva, que se assemelha a um espelho sem reflexo: quem olha directamente para ele, não vê absolutamente nada; quem fecha os olhos ou olha para outro lado qualquer, vê o reflexo exacto da sua ausência. Por isso, meu caro amigo, é bom que olhemos uns pelos outros.
agosto 17, 2006
Semelhança
As palavras e os batráquios são muito parecidos: fazem muito barulho, e não querem dizer absolutamente nada.
agosto 04, 2006
Óbvio

O tempo passa macio e instável, como quando se anda em pé em cima de um colchão. O colchão, por sua vez, desliza lateralmente na esquina cortante dos ponteiros de todos os relógios do mundo. É apenas e exactamente por isso que o tempo passa mais depressa do que a saudade.
julho 21, 2006
Blind copy (Bcc)
Entretanto, enquanto o tempo passa mas finge não acabar, inventam-se fantasmas de pessoas que ainda não morreram. A visão duplica os afectos e as percepções; umas sentem aquilo que não existe para sentir; outras, sentem as marcas cravadas na pele do que não tem imaginação para existir.
julho 19, 2006
Core business
O que realmente importa não são as conversas pseudo-profundas sobre o estado das coisas científicas ou dos amores/desamores militantes; O que importa realmente... Se está fresca, se tem gás e se está dentro do prazo de validade.
julho 01, 2006
Lx
Tu és um espaço premeditado de incertezas, em que tudo se passa e nada acontece. Que tal tirares umas aulas de natação e, enquante ele existe, mergulhares no rio que está à tua frente?
junho 08, 2006
Time out
Não tenho tempo para ficar tanto tempo à espera de mais tempo.
maio 24, 2006
Aos místicos e a ti Martinho
Hoje não foi um dia como outro qualquer. Abracei o meu irmão, joguei matraquilhos num hipermercado e senti-me feliz.
abril 08, 2006
Tu
Dá imenso jeito estares longe e imaginar que todos os teus defeitos são virtudes. A saudade nasce do que não existe e o tempo inverte os ponteiros do relógio para te voltar a ver.
março 30, 2006
Oposto
Estou no oposto da imagem que vejo quando fecho os olhos. As canetas aqui escrevem azul e no oposto o azul escreve-se com lápis número dois. Aqui ri-se da desgraça dos outros, no oposto ri-se da nossa própria desgraça. Aqui, espera-se que o tempo passe até termos que esperar que passe outra vez. No oposto passa-se o tempo a correr, com medo que acabe.
Aqui, não quero estar. No meu oposto não sei.
março 26, 2006
Errata
Escrevi aqui em tempos umas linhas sobre passar a ponte sobre o Tejo... É tudo mentira. Nem ele deixou uma rosa no tapete, nem ela gostou da rosa que ele não deixou.
março 21, 2006
EkdahL
Uns usam para viajar, outros para acordar bem disposto. De qualquer forma, quando se deixa o céu para trás, tanto faz estar acordado ou a dormir.
março 16, 2006
Queda
Margaridas pelo ponto de vista de uma perita em quedas de bicicleta. (Se algum dia cair, quero cair ao pé de ti).
março 14, 2006
Tinta
Perdi a cor da minha memória e não me consigo lembrar do nome com que quero pintar as paredes. Já lhes perguntei, mas elas, resignadas a uma monotonia cromática quase secular, deslumbraram-se com a pergunta e enlouqueceram. Aos tectos, não vou permitir a escolha, para que não lhes aconteça o mesmo.
março 13, 2006
Birra
Não vou.
março 10, 2006
Odisseia
Não estou de passagem. Vou ficar uma eternidade ou duas a pisar as riscas brancas e o espaços de alcatrão. Quando passares por aqui outra vez, não te importas de me trazer um cd com músicas novas para ouvir?
Obrigado.
março 07, 2006
Devagar
Um copo de paciência e inspiração dava jeito agora. Não consigo misturar as cores nem combinar as coisas que, antes de estarem, já estão usadas.
fevereiro 25, 2006
Xerox
Hoje não existem palavras. A imagem tem que, obrigatoriamente dizer tudo, se é que ainda existe alguma coisa que valha a pena repetir. Por acaso, agora que falo em repetição, o Sol, o céu e um cabelo cor de rosa ao vento é multiplicável.
fevereiro 24, 2006
Inclinação
O mundo está torto.
fevereiro 23, 2006
Maria Rosa Mar
Sem inspiração.
fevereiro 16, 2006
Facto
Onde não existe tempo, não existe saudade.
fevereiro 08, 2006
Toca a banda

janeiro 26, 2006
43 g
Tenho 43 gramas. Muitos excessos e vícios fizeram-me assim. Mas ainda há esperança. Quando inventarem transplantes de cérebro, pode ser que alguma maçã reineta esteja farta de ser saudável e queira trocar com um cérebro viciado em vícios.
janeiro 17, 2006
Shutdown
Por vezes apetece-me apagar a luz e tentar dormir durante um século ou dois. Pode ser que quando acordar, já tenham inventado máquinas de cortar fiambre portáteis.
janeiro 09, 2006
Fila
As amizades fazem-se em fila indiana.
janeiro 04, 2006
Errar é humano
Quando se anda em cima de linhas tortas, corre-se o risco de magoar os sapatos.
dezembro 06, 2005
Rotina
Sinto-me preso ao tampo da mesa onde pouso o meu copo.
dezembro 04, 2005
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dezembro 02, 2005
Percurso
O monstro que chegou ao cimo da colina antes de ti reparou que não vale a pena subir. É por esta razão que se encontram pessoas: umas vão enganadas a subir, outras descem desiludidas... No meio, está a podridão da virtude.
novembro 24, 2005
Vidro
Palavras que não cabem num copo e fazem transbordar gotas sem sentido São etílicas à noite e pela manhã condensam cansadas num livro.
novembro 06, 2005
Rota
O teu cansaço é a minha regra.
outubro 04, 2005
Mapa
Arrasto-me pela rua principal desta cidade e e não sei onde estou. Não consigo fazer o mapa das minhas memórias sem bloquear o que realmente preciso de cartografar: as armadilhas dos caçadores furtivos do tempo dos outros e um ou outro relevo mais acidentado. Recordo vagamente lugares onde me perco e instintivamente, como uma toupeira a esburacar a terra, procuro sofregamente repetir esse processo de perdição.
setembro 30, 2005
Migalhas
Hoje em dia, os espaços quadriculares com alguma relva recordam-me espaços triangulares com migalhas de bolachas que estiveram uma semana no bolso esquerdo da mochila.
setembro 27, 2005
Acrobacia
Vou encher uma mesa com copos. Vou encher os copos com duzentas e 30 e nove gotas. Vou pegar no lado esquerdo da mesa com a mão direita, dar uma volta sem derramar o líquido que está dentro dos copos esperar que congele, numa era glaciar ou duas. Depois, deixo derreter ao Sol e conto novamente as gotas dentro dos copos. Se estiverem a menos, a culpa é tua; Se estiverem a mais, a culpa é tua; Se estiverem exactamente as mesmas, a culpa é das gotas.
setembro 21, 2005
putrefacto
artefacto
tacto
acto
to
tu
setembro 07, 2005
bla
hoje nao me apetece absolutamente nada.
a não ser trocar a minha inexistencia de desejos pelo desejo de ser só feliz.
agosto 30, 2005
Centro Comercial
Corta na primeira à esquerda e quando chegares ao semáforo, desliga o motor. Pede uma imperial e um prato de moelas. Come, fala de futebol, dos incêndios e dos bons dias de praia que fizeste e, quando o semáforo te responder, tenta vender-lhe o carro por um bom preço.
Dê Sangue
Neste estabelecimento, temos sangue para todos os gostos. Até para ti, arauto: - "A dor!!!! A dooor é importante!!!Aaaaaaaaagagaahhahaaaah!!!!"
agosto 26, 2005
Copo
Demoras sempre mais do que devias a chegar. Hoje, para variar, não vou esperar por ti. Vou beber uma imperial, contar os copos da mesa do lado e sonhar com o segundo planeta a contar do meio. Aquele que não tem mesas e muito menos copos.
junho 26, 2005
Connections
É um mundo complexo onde vivemos.... Mas pode ser extraordinariamente simples : basta ligar os quarenta e dois mil novecentos e vinte e 3 fios, falar quarenta e 4 línguas e parar nos sinais vermelhos.
março 25, 2005
Alto mar
Conheço Goa, Moçambique e muitas outras terras. Sei falar línguas, que vocês nem sabem o nome... Sou marinheiro mas deixei, há muito tempo, de saber para que lado fica o mar.
janeiro 18, 2005
Gasto
Para além de não me lembrar do que quero escrever, estou sem bateria.
agosto 11, 2004
Pressa
O homem não via as riscas da passadeira. Procurava, corria o passeio e nada. Queria chegar ao outro lado, mas simplesmente não via por onde passar. Estava com pressa, tinha notícias para dar e receber. Desesperado, chocou com uma mulher que, tal como ele, queria atravessar e não sabia como. Pararam. Ela disse: - anda! Deram as mãos, atravessaram. Até meio. O camião que os desfez não fez por mal. Mas também estava com pressa. De chegar a qualquer lado.
julho 09, 2004
Direcções
Se seguires pela avenida principal da cidade, chegas a uma praça, onde anda uma estátua a correr de um lado para o outro. Quando lá chegares, pergunta ao terceiro candeeiro apagado a contar da esquerda se não se importa de te fazer companhia enquanto eu me perco, à procura de outra praça qualquer.
junho 17, 2004
Espaço
Deixei o tempo em casa, dividido entre a segunda e a terceira gaveta do lado esquerdo da secretária. Não me apeteceu traze-lo desta vez. Tinha pouco espaço nos bolsos. As chaves de casa, do carro, a carteira, o telemóvel e a máquina fotográfica deixaram-me sem espaço para o tempo. Agora, que já gastei as chaves e a bateria do telemóvel, trocava de bom grado a decisão anterior e teria posto no bolso um bocado de tempo. Um que passasse sem me obrigar a pensar nos outros já gastos e nos que ainda provavelmente tenho para gastar.
junho 09, 2004
Incidente
Bati no pára brisas da tua memória e esqueci-me do que queria escrever.
maio 20, 2004
Indecisão
O tempo estava indeciso. Não sabia se queria convidar um copo para beber um inimigo ou ir jogar rugby com a cabeça de um bicho morto. Estava a tentar arranjar maneira de conciliar as duas coisas, quando encravou uma avenida de trânsito e fez chorar 14 crianças sentadas nas cadeiras dos carros das mães. Alertado pelo som das buzinas e do choro abafado que batia nas janelas fechadas por causa do ar condicionado, fugiu para uma rua perpendicular, esquecendo na passadeira a culpa do momentâneo caos que deixou para trás. Afundou-se na sua indecisão e ficou uma eternidade sentado no passeio, onde não passava ninguém.
maio 17, 2004
HumaNature
Engraçado o vosso mundo... Não têm plástico a envolver-vos, mas têm sentimentos. Choram, apesar de vos ensinarem que "boys don't cry". Sorriem para quem não gostam e discutem com quem mais vos ama. Talvez seja um defeito cromossomático, corrigível daqui a seis ou sete gerações. Estarei cá para ver.
maio 13, 2004
Invisível
Hoje não tenho imagens. Ou melhor, tenho todas as imagens do mundo. Por isso não quero imaginar estas palavras. Ficam só palavras e mais nada. Palavras e raiva. "Se não sabes onde vais, porque teimas em correr, eu não te acompanho mais." Foda-se.
(e outro invisível)
maio 11, 2004
Poção Mágica
Quero forçar as palavras a sair, porque as imagens não saem da minha cabeça. Da minha cabeça e do meu desktop. Já não me entento com tantos recortes de tempo. Entre a família, bichos, flores e urbanidades banais, escolho hoje uma tijela de sopa. Mas não é uma sopa qualquer. Tem poderes sobrenaturais: Basta um bocadinho para conseguir passar mais uma semana a fazer coisas que já não me consigo lembrar lá muito bem porque as tenho que fazer.
maio 07, 2004
Phantom Escape
 Amanhã não vou trabalhar. Vou a esta estação, compro um bilhete para uma terra com um nome giro e lá vou eu. Ao chegar, bebo uma imperial e procuro os doces regionais lá do sítio. Arranjo maneira de me apoderar da receita, abro uma pastelaria e bebo mais imperiais. Quando conseguir poupar algum dinheiro, o suficiente para comprar o bilhete de volta, venho visitar a família. Depois, começo tudo outra vez, mas de barco.
maio 04, 2004
Taste Time
Tudo acontece tão depressa que, por vezes, deitamos fora bocados de tempo sem sequer o termos usado. Por educação, por receio do tempo consequente ou ainda por tempos passados. As horas tornaram-se mastigáveis, mas difíceis de engolir. E só quando nos atrasamos um pouco no corropio diário do dia, e ficamos para trás parados num banco qualquer, é que nos apercebemos da estupidez que é tudo isto. Quem me dera poder trocar de valores como quem masca uma pastilha... Para quê ser um Jeckyll, quando se pode ser um Mr. Hyde?
abril 27, 2004
As palavras
 As palavras? Não estão. Aqui apenas aromas, odores e carícias...
copulavocabular.blogs.sapo.pt
(obrigado sybilla)
abril 24, 2004
Saudade
Apetece-me beber um copo cheio de palavras, mas daquelas que nos fazem sentir bem. Não me apetece beber coisas como sangue, rasgar ou putrefacto. Também não quero morte, guerra ou, principalmente, Saudade. Estou farto de Saudade. Foda-se, também não quero política nem futebol. Quero drogar-me com palavras de um livro infantil de segunda categoria, daqueles que são vendidos num hipermercado, a 30 metros das laranjas e alfaces, e que provavelmente têm erros ortográficos. Quero o que a maioria das pessoas já esqueceu que existe.
abril 21, 2004
Enfant Terrible
Ocorreu uma normalização da infância. Todos os brinquedos, sorrisos e dúvidas foram reduzidas após um estudo estatístico sumário. Desvios padrões e médias bastaram para passar o universo infantil de gigante a formiga. Ainda houve alguma reacção, não organizada, que resultou numa curta mas sangrenta guerra civil. De nada adiantou, e em pouco tempo a revolta foi sanada. Hoje, pela calada, fala-se de seis heróis que escaparam à ordem de régua e esquadro e vão voltar, um dia, para nos devolverem a possibilidade de voar sem asas, como uma criança fazia "antigamente"...
abril 15, 2004
SPOT
O cão decidiu passear sobre Lisboa. Literalmente sobre. Pediu boleia a um satélite simpático que ia a passar e lá foi ele, voar por cima das ruas e avenidas lisboetas. Parou no Marquês e viu uma multidão de carrinhos de choque que andavam furiosamente às voltas na rotunda, parecendo não encontrar a saída. Para tirar esse imagem angustiante da cabeça, saltou no Tejo, que lá de cima, parecia surpreendentemente azul.
abril 13, 2004
Vida de Cão
O mal da passagem de ano, dos casamentos e dos jantares armados em finos é comum: Não são, vá-se lá saber porquê, muito compatíveis com cerveja. Alguém me sabe dizer o que este líquido tem de tão fabuloso?...
abril 06, 2004
Manif
Um olhar mais desatento pode confundir isto com um parque de estacionamento. Longe disso. Isto é uma manifestação. Os carros estão revoltados porque se aproxima a Páscoa e não querem ir para o Algarve ou para o Minho: querem ficar a dormir até mais tarde e talvez ir beber um copo com os amigos. Alguns ainda aceitam ir, mas com uma condição: no regresso, não querem carregar batatas e galinhas (vivas ou congeladas).
abril 05, 2004
T zero
Adormece aí e és capaz de ter que acordar mais cedo... Se me apetecer cumprir as regras, levo a gravata e preciso desses sapatos. O objectivo é simples: trabalhar - ganhar dinheiro - comprar-te ração - "morrer cedo e deixar um belo cadáver". Vá, vai lá dormir para outro sapato...
abril 02, 2004
LiSBOA
Lisboa permanece uma fantástica aldeia onde as pessoas insitem em fingir que não se conhecem. Talvez por se esquecerem, à noite, do que se passou durante o dia, ou de dia, que a noite passou por elas. Não temos poção mágica nem somos, de facto, irredutíveis, mas acho que tão cedo não vamos desaparecer. Mas ainda há esperança: Uns quantos seres respirantes, de vez em quando, sorriem e, imagine-se, dizem bom dia.
abril 01, 2004
Vespa Mercúrio

De vez em quando ainda penso que há vida noutros planetas. Talvez não tão avançada como a nossa, com carros, estádios, motas, aviões, máquinas de cortar fiambre, barcos, acidentes, comboios e montanhas russas. Se calhar só com carrinhos de mão e uma ou outra bicicleta.
março 30, 2004
24 Horas
Uma última imagem antes de dormir. Vou apagar a luz de mais um dia que não percebo bem porque passou.
março 29, 2004
Secret Garden
Há um jardineiro fantasma que cuida dos jardins de Lisboa. Não os rega nem aduba. Deixa isso para os seus colegas respirantes que vestem de verde e o fazem durante o dia. Ele trabalha quando o Sol se põe. Vai ter com as flores e, individualmente, pede desculpa pelos 123.435 carros que passam e poluem o ar. Pergunta-lhes como correu o dia e despede-se com um carinho, tão importante como a água que lhes chega às raízes.
março 28, 2004
A Virtude do Meio
Voltei a atravessar a ponte. A vermelha. Sobre o Tejo. A vontade não era propriamente trocar de margem, era mais ficar indefinidamente em cima do tabuleiro. Talvez abrir um restaurante panorâmico. Nada luxuoso. Teria uma banca de cachorros e uma televisão grande para ver a bola. Assim, quem quisesse, em vez de estar nas filas com vontade de matar o condutor do carro da frente, podia fazer uma pausa, apreciar a paisagem e beber um copo.
Revolução
Houve uma revolução secreta no meu quarto, enquanto dormia. Se calhar não foi silenciosa, mas não dei por nada. Os cd's resolveram reorganizarem-se, muito provavelmente influenciados pela prolongada repressão a que os sujeito. Na cronologia desta revolução, podemos definir dois movimentos distintos: um mais moderado, em que os cd's apenas trocaram de caixas. O BB King acabou por ficar no best of dos Wham, os The Black Crowes ocuparam a caixa dos Mind da Gap e por aí fora; O segundo período, mais radical, foi quando as músicas decidiram mudar de cd propriamente dito: O Fragments of Freedom, dos Morcheeba começa agora com o Jorge Palma. Deixa-me rir...
março 24, 2004
Banco de Dados
Necessitam-se dados que de forma conclusiva nos façam perceber para onde vai o Universo. Para tal, estamos a requisitar voluntários que queiram contribuir para a produção de conhecimento científico. Pretende-se alguém com experiência na arte de bem sentar e com ouvido apurado, para aquecer um banco e medir o som da relva a crescer.
março 20, 2004
Plastic Girl
Encontro-me perfeitamente nova. Ainda ninguém brincou comigo. Nem sequer a senhora chinesa que me fez (a mim e às minhas 72.234 irmãs gémeas). Bem, o rapaz que me pôs o plástico sorriu, mas duvido que tenha sido por mim... Acho que era pelo cigarro artesanal com cheiro a chá que fumava na altura. Depois disso acordei dentro desta caixa transparente e mesmo ao meu lado tenho um gajo chato como uma porta, que está sempre a dizer que vai dominar o mundo e que o Porto vai ser campeão.
A Margem Errada do Tejo
Era uma vez uma ponte. Sobre o Tejo. Vermelha. Sabe muito bem passa-la durante a noite, quando os companheiros de travessia são, na maioria, noctívagos em busca dos prazeres da noite lisboeta, em vez dos habituais resignados "margem sul lovers", que adoram morar em Almada e que não a trocavam por Lisboa, mas teimam-no em fazer todos os dias da semana e, curiosamente, ao mesmo tempo. Sabe ainda especialmente melhor porque estou a ouvir uma rádio que, para mim, é nova. Ainda não tem o travo completamente definido e cada descoberta ainda é positiva. Revejo mentalmente as coisas que deveria fazer quando estiver a dormir de manhã e convenço-me de que a tarde chega perfeitamente para isso. Sou interrompido pelo som de uma sms a chegar do telemóvel. Com a destreza impulsiva comum aos condutores da era tecnológica, pego no telemóvel com uma mão e leio a mensagem: "- Isto nao e normal. Tenho uma rosa no tapete de casa!" Deixo a ponte para trás e entro em terra firme a sorrir...
março 17, 2004
Dirty Flower
Pisei, sem querer, esta flor. Merecia, no mínimo, uma fotografia... Agora que a revejo, percebo que não fiz nada bem feito: nem a pisadela, pois continou bonita como era antes; nem a fotografia, porque não transmite metade da beleza que ainda lá ficou...
março 16, 2004
I will rule the world!
nheinc nhienc! Procura-se emprego para ruler of the world. Dão-se referências. Experiência em anexação de pequenos países e ditaduras relativamente prolongadas.
Faster
Hoje, quero que a noite passe mais depressa Por isso acelero em direcção às luzes disformes de um dia que ainda não sabe que vai chegar
Cruzo-me com outras luzes, em sentido contrário desejosas que a noite não acabe talvez a fugir de um dia que nunca deveria ter existido
Arauto Mor
março 10, 2004
Destilaria residente
O espírito eleva-se, chega mais perto do Sol, e o calor faz destilar o alcool que lhe corre nas veias A conversa torna-se etílica e outonal e as palavras começam a cair mais devagar que as folhas amareladas por outros temas.
março 03, 2004
Maria Joana
Pronto-a-vestir
O teu sangue não me serve já por duas ou três vezes o tentei vestir, mas fica-me curto. No entanto, o teu pavilhão auricular acenta-me que nem uma luva.
Quando encontrar sangue aviso-te.
Casa de Pedra com internet
Vou concorrer a uma Câmara Municipal do interior e criar ovelhas e ter um cão. E fazer queijos. E plantar couves e semear milho. E plantar cenouras. E batatas. E vou me meter na política lá da terra. E vou ter mais um cão. E vou plantar alfaces e tomates. E deixo crescer a barba. E vou à missa ao domingo. E galinhas, vou ter galinhas também, mas coelhos não porque não gosto de coelho. E vou ter um arco porque sempre quis ter um. Com setas a sério. E vou ter uma casa de pedra com internet. E no telhado vou ter uma janela muuuuito grande para o Sol entrar directamente para o quarto - que vai ser no sotão. E vou ter paineis solares. E vou ter mais um cão. E vou ter azulejos pintados à mão em tons de azul na casa de banho. Na cozinha vou ter uma lareira muito grande. E não vou ter amigos, porque vão todos achar que sou maluco. Por isso vou ter mais um cão. E vou ter uma aparelhagem muito grande para ouvir música. E vou ter uma televisão metida dentro de um armário. E vou viajar de mota. E vou escrever postais às pessoas. Ou aos cães, não sei ainda. Às galinhas não escrevo porque toda a gente sabe que não sabem ler.
Lixboa
Ontem, Lisboa esteve bonita. Quero dizer, mais bonita do que o normal. Tinha mais Sol e menos pessoas.
fevereiro 28, 2004
Wake up call

AUURF! Acooorda!
Representing a Ghost

Não estou onde ontem estava depois de amanhã. Estou ligeiramente preso e, ultimamente, as semanas seguintes têm tendência a apanhar-me.
fevereiro 13, 2004
Local
Somos arautos de uma desgraça feliz e aqui estamos, onde o tempo passa mais devagar.
Areia
Os tempos que passam deixam espaços vazios apenas preenchidos por um bocado de areia nos sapatos e um sorriso no olhar.
fevereiro 06, 2004
Desejo
não me apetece deixa aí ficar num canto o desejo
deixa-me só.
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